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figurino-dramaturgia

O figurino não veste apenas o corpo, ele veste o tempo. Antes mesmo que uma personagem diga a sua primeira palavra, já revelou ao público algo sobre si: sua origem, seus desejos, suas faltas, seus medos, aquilo que escolheu esconder e aquilo que não consegue disfarçar. O figurino é uma forma silenciosa de escrita, uma dramaturgia feita de tecido, corte, textura, peso, cor e memória.

Talvez por isso eu nunca tenha entendido o figurino como adorno ou acabamento: ele não chega ao final do processo para "embelezar" uma ideia já pronta. Ao contrário: ele ajuda a construir a própria narrativa. Muitas vezes, é através da roupa que descubro quem é aquela personagem, como ela ocupa o espaço, de que maneira se move e qual história carrega inscrita sobre a pele.

Em espetáculos tão distintos quanto Tatuagem, Carmen - a Grande Pequena Notável, Cabaret, Gal ou nos tantos outros trabalhos desenvolvidos ao longo da minha trajetória, o figurino sempre foi uma tentativa de transformar matéria em significado. Não se trata de reproduzir uma época com exatidão documental, mas de compreender o que aquela época comunica emocionalmente ao espectador. O que importa não é apenas o vestido dos anos 40, o terno dos anos 70 ou o possível exagero do Teatro de Revista. Importa a memória afetiva que esses elementos acionam e o discurso que constroem em cena.

Um figurino pode revelar poder antes que ele seja exercido. Pode anunciar a ruína antes da queda. Pode expor fragilidade sob a aparência do luxo. Pode denunciar a tentativa desesperada de pertencimento. Pode transformar um coro em coletivo ou destacar um indivíduo em meio à multidão.

Gosto de pensar que cada peça de roupa guarda as marcas invisíveis de quem a tornou possível: o olhar da direção, a imaginação da equipe de criação, o gesto preciso das costureiras, o trabalho das camareiras, a escuta dos atores, as adaptações feitas durante o processo, as mãos que tingiram tecidos, pregaram botões, refizeram barras e encontraram soluções onde antes existiam problemas. Há uma comunidade inteira costurada em cada figurino.

O modo como alguém se veste em cena é também uma tomada de posição sobre o mundo. E talvez seja por isso que eu continue acreditando que figurino é dramaturgia: porque o tecido, quando encontra o corpo e a luz, deixa de ser matéria inerte para se tornar narrativa.

O figurino não veste apenas o corpo, ele revela tempo, contexto, desejo e conflito.

E quando o espetáculo termina e a cortina se fecha, é justamente aquilo que foi tecido em silêncio que permanece na memória do espectador.

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