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Trabalhar com memória é aprender a escutar aquilo que insiste em permanecer.

Durante muito tempo, fomos ensinados a pensar a memória como arquivo: um lugar onde o passado repousa intacto, aguardando o momento de ser consultado. Mas a memória não é um depósito escuro, a portas fechadas. Ela é organismo vivo. Move-se, transforma-se, esquece detalhes, inventa outros, reorganiza afetos. Cada vez que voltamos a uma lembrança, nós a recriamos.

É uma das matérias-primas mais poderosas da criação artística e grande parte do meu trabalho nasce desse desejo de revisitar histórias para descobrir o que elas ainda têm a nos dizer. Não por nostalgia. A memória faz perguntas, investiga ausências, confronta contradições e nos obriga a perceber que aquilo que fomos continua moldando aquilo que podemos ser.

Foi assim ao revisitar o Teatro de Revista brasileiro, ao mergulhar na trajetória de artistas que ajudaram a construir nossa identidade cultural, ao costurar as muitas camadas de um país contraditório e exuberante. Foi assim ao acompanhar os vestígios deixados por espetáculos, figurinos e personagens que sobreviveram apenas nas fotografias, nos programas amarelados pelo tempo, nas anotações de bastidores e nas histórias contadas por quem esteve lá.

A memória não é feita apenas de grandes acontecimentos. Ela habita os detalhes. Está na costura refeita às pressas minutos antes da estreia; no figurino guardado durante décadas; no gesto repetido por um ator; na luz que atravessa a poeira do palco vazio; na voz de uma costureira que recorda um espetáculo que muitos já esqueceram. A história do teatro não pertence apenas aos nomes que aparecem nos cartazes. Ela também é construída pelas mãos anônimas que sustentam o acontecimento artístico.

Talvez seja por isso que registrar se torne um ato de responsabilidade. Fotografar, escrever, catalogar, preservar acervos e compartilhar processos não significa congelar o passado, mas garantir que as próximas gerações possam dialogar com ele. Não para repeti-lo, mas para reinventá-lo: toda criação é feita de heranças e desvios.

Criamos a partir daquilo que recebemos, das histórias que ouvimos, das imagens que permanecem conosco e até mesmo dos esquecimentos que tentamos reparar. Inventar o novo nunca foi começar do zero. É reconhecer os fragmentos disponíveis e encontrar outras maneiras de organizá-los.

Trabalhar com memória é recolher vestígios, ouvir silêncios, costurar pedaços aparentemente desconexos e oferecer a eles uma nova possibilidade de existência.

Imaginar o que ainda pode vir a ser, costurar fragmentos para inventar futuros possíveis.

 


 

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