




O teatro nasce do encontro.
Pode parecer uma afirmação simples, já tantas vezes dita, mas talvez ela seja a sua condição mais radical. Diferentemente de tantas outras formas de arte, o teatro só acontece plenamente quando diferentes presenças compartilham o mesmo tempo e o mesmo espaço. Não existe espetáculo sem quem o faça e sem quem o testemunhe. A experiência teatral é, acima de tudo, uma negociação delicada entre quem oferece e quem recebe, entre quem fala e quem escuta, entre quem vê e quem aceita ser visto.
Talvez seja a fragilidade do efêmero que torne o teatro tão necessário. Vivemos um tempo em que quase tudo pode ser interrompido, acelerado, revisto ou consumido em solidão. Assistimos a filmes sozinhos, ouvimos músicas por algoritmos, conversamos através de telas. O teatro propõe o contrário: exige presença. Convoca corpos para ocuparem juntos um mesmo lugar, pede disponibilidade para o imprevisto. Lembra que nenhuma tecnologia substitui completamente a potência de pessoas reunidas para imaginar uma história em comum.
Ao longo da minha trajetória, essa dimensão do encontro sempre esteve no centro do trabalho. Seja nos espaços intimistas da Cia. da Revista, onde o público quase compartilha a respiração dos atores, seja em grandes musicais, em experiências imersivas ou em espetáculos construídos a partir da memória brasileira, o que me interessa é reduzir a distância entre palco e plateia. Não apenas física, mas emocional.
Talvez por isso eu me encante tanto pelos espaços não convencionais, pelas arquiteturas que aproximam, pelas cenas que atravessam corredores, pelos espetáculos que transformam espectadores em testemunhas de um acontecimento e não apenas consumidores de um produto cultural. O teatro, para mim, não é um objeto acabado que se entrega pronto ao público. É um pacto temporário, uma comunidade formada por algumas horas.
Quando as luzes se apagam e desconhecidos dividem o mesmo riso, a mesma perplexidade ou o mesmo silêncio, algo raro acontece. Pessoas que talvez nunca mais se encontrem reconhecem, umas nas outras, a possibilidade de sentir em conjunto.
Num mundo que insiste em nos separar, o teatro continua sendo um dos últimos lugares onde estranhos se reúnem para lembrar que pertencem à mesma humanidade.
A experiência teatral é, acima de tudo, um acontecimento coletivo e irrepetível e talvez seja justamente por isso que continuemos voltando a ela. Porque, ao final de cada espetáculo, percebemos que não assistimos apenas a uma história, nós estivemos juntos.



